Pesquisa da linguística na UFMG revela angústias dos mestres contemporâneos

Professores se sentem sem autoridade e perdidos diante da profusão de discursos pedagógicos

Eles se sentem fragilizados: a condição social da profissão não é mais a mesma, dilui-se a autoridade de detentores do saber, e mecanismos hierárquicos rígidos continuam a reger o cotidiano na escola. Esse perfil foi revelado por pesquisa levada a cabo em escola pública de Estêvão de Araújo, distrito de Araponga, na Zona da Mata mineira.

Hermínia Martins Lima Silveira, que é docente do Núcleo de Letras do Centro Pedagógico (CP) da UFMG, voltou a sua cidade natal para fazer o trabalho de campo de sua pesquisa de doutorado, vinculada ao Programa de Pós-graduação em Estudos Linguísticos. Participaram do estudo sete dos 17 professores da escola, que tem turmas dos níveis de ensino fundamental e médio.

A questão central eleita pela pesquisadora é o que significa ser professor na contemporaneidade, marcada por novos laços sociais, liquidez dos discursos, excesso de imagens da sociedade-espetáculo. “As falas dos entrevistados eram atravessadas, no primeiro momento, por ideias cristalizadas, como a dos baixos salários e da violência dos alunos”, afirma Hermínia Lima. “À medida que o trabalho evoluía, essas falas prontas eram desconstruídas, porque a realidade nessa escola difere em alguns aspectos da de unidades nas regiões metropolitanas.”

As outras causas da angústia dos mestres se provaram consistentes. De acordo com Hermínia, eles sofrem com a certeza de que não sabem tudo e de que isso lhes rouba parte da autoridade, que estaria atrelada a esse saber. “Além disso, tendo em vista que se trata de uma atividade relacional, em que estão em jogo desejos de professores e alunos, angustia a impossibilidade de controle sobre os resultados do trabalho”, diz a pesquisadora.

Metodologia

Hermínia Lima fundamentou sua pesquisa em autores da psicanálise, como Freud e Lacan, e nomes como Michel Pêcheux (análise do discurso), Zygmunt Bauman (modernidade e pós-modernidade) e Guy Debord (sociedade-espetáculo). Ela aplicou entrevistas semiestruturadas e promoveu encontros coletivos apoiados no Método da Conversação, criado pelo psicanalista Jacques-Alan Miller.

“Nesses encontros, os professores são afetados pela palavra do outro. A Conversação possibilita que o diferente apareça nos discursos, fazendo emergir novos significantes. E minhas intervenções visavam à reelaboração das falas”, explica a professora do CP.

Em sua maioria, os participantes da pesquisa enfatizaram que são movidos, sobretudo, pela vocação. Embora reconheçam a necessidade de atualização profissional, segundo Hermínia Lima, os professores reclamaram da grande quantidade de novos métodos pedagógicos, que eles não se sentem em condições de acompanhar. Há certa ambiguidade também nas manifestações sobre as normas no ambiente profissional, que eles ora criticam – como modos de “funcionamento” de algumas instâncias hierárquicas –, ora demonstram valorizar, como forma de obter respeito.

Os docentes destacaram ainda, que, em geral, os alunos vivem relações sociais verticalizadas e que as famílias são marcadas pela presença forte da figura paterna; sobre a escola, manifestaram que ela é capaz de oferecer recursos valiosos, mas mostraram descontentamento com a estrutura dos estabelecimentos públicos de ensino.

Também chamou a atenção da pesquisadora o tom de denúncia dos participantes com relação à organização do sistema educacional. Como ela escreve em sua tese, essa organização “contribui de forma negativa para o desempenho dos alunos”, uma vez que as políticas pedagógicas tentam enquadrá-los “num modelo de processo de ensino-aprendizagem que, em nome do universal, do coletivo, esquece do particular”.

Tese: Ser professor na contemporaneidade: tensão entre o particular e o coletivo
Autora: Hermínia Maria Martins Lima Silveira
Orientadora: Maria Antonieta Amarante de Mendonça Cohen
Coorientadora: Maralice de Souza Neves

Defesa em 3 de fevereiro, no Programa de Pós-graduação em Estudos Linguísticos

Itamar Rigueira Jr. – Boletim 1993

Fonte

Assessoria de Imprensa da UFMG

(31) 3409-4476 / 3409-4189

www.ufmg.br/comunicacao/assessoria-de-imprensa

Serviço

Pesquisa da linguística na UFMG revela angústias dos mestres contemporâneos