Pesquisa reúne especialistas de 26 instituições para avaliar risco de colapso da biodiversidade aquática

Após anos de trabalho, análise compilou dados sobre largura da vegetação ciliar no entorno dos rios e sobre peixes e invertebrados de riachos; pe

Tomadores de decisões e conservacionistas têm sido desafiados com a tarefa de proteger os ambientes aquáticos em distintas partes do mundo, estabelecendo e implementando limites às alterações provocadas pelas ações humanas. Mas como deve ser guiado o processo de proteção às Áreas de Preservação Permanente (APPs) da biodiversidade aquática? Pesquisadores da UFMG e de outras 26 instituições de pesquisa reuniram uma vasta quantidade de dados sobre peixes e invertebrados de riachos distribuídos na maioria dos biomas e assim traçaram algumas respostas para essa complexa questão.

Um artigo com as conclusões do grupo, que conta com mais de 50 especialistas, foi publicado recentemente no periódico Journal of Applied Ecology. No texto os profissionais exploram o trabalho realizado em uma das regiões mais ricas do mundo em termos de ambientes de água doce - a região Neotropical. A ideia foi utilizar o local como foco para aprofundar a compreensão da prevenção de colapsos nos ecossistemas aquáticos. Isso foi possível pois cada pesquisador realizou anos de trabalho, com etapas de coleta, identificação e organização de dados sobre os ecossistemas aquáticos do Brasil.

Em sua investigação, os autores utilizaram imagens de satélite para detectar mudanças no entorno dos riachos, combinadas com uma abordagem de estimar pontos abruptos de alterações da biota (limiares) baseados em indicadores biológicos. “Esses limiares ocorrem quando vários indicadores biológicos respondem de forma similar a uma certa quantidade de perda de vegetação ripária”, complementa Renato Dala-Corte, primeiro autor do estudo e pesquisador na Universidade Federal de Goiás.

Resultados

O estudo sugere que não existe um valor único de largura de vegetação ripária - a que ocorre nas margens de rios e mananciais - que posse garantir que os ecossistemas aquáticos não irão sofrer mudanças abruptas de biodiversidade devido às pressões de uso do solo. “Esse resultado tem implicações diretas sobre o manejo de reservas ripárias (APPs), porque as regulamentações e leis implementadas nos distintos países usam um único tamanho para limitar o uso do solo em escala nacional, sem levar em consideração particularidades regionais ou o tipo de atividade antrópica”, explica Dala-Corte.

“Para o Brasil, um país de escala continental, faz sentido que um tamanho único não sirva para tudo, o que sugere que muitos ecossistemas aquáticos no país estejam próximos ou já tenham ultrapassado os limiares que levam a perdas abruptas de espécies”, ressalta o especialista.

Outra descoberta diz respeito ao tamanho mínimo das reservas. Dentro do menor tamanho ripário avaliado (50 metros), a perda de apenas 6,5% de vegetação nativa, em média, já foi suficiente para alcançar declínios acentuados de invertebrados aquáticos. Na Amazônia, esse valor foi de apenas 2,9%. Quando um tamanho ripário maior foi avaliado (500 metros) uma porcentagem quatro vezes maior de perda de vegetação nativa foi necessária para ultrapassar os limiares. Um padrão semelhante foi observado para peixes.

Isso significa que a sensibilidade às mudanças aumenta à medida que nos aproximamos dos riachos e que quase qualquer alteração na área de 50 metros no entorno deles é suficiente para desencadear grandes mudanças na biodiversidade aquática.

Os autores concluem que os indicadores biológicos mais sensíveis podem ser usados como sinais precoces que alertam o risco de aproximação de mudanças abruptas nos ecossistemas aquáticos. Indicam, ainda, a necessidade de políticas adicionais para a proteção de grandes reservas ripárias na região Neotropical, as quais devem considerar o contexto regional na formulação dos regulamentos e promover incentivos aos proprietários de terras particulares para conservarem largas áreas ripárias.

Artigo: Thresholds of freshwater biodiversity in response to riparian vegetation loss in the Neotropical region

Autores: Renato B. Dala‐Corte, Diego R. Macedo, Marcos Callisto, Diego M. P. Castro, et al.

Publicação: Journal of Applied Ecology, DOI: 10.1111/1365-2664.13657: 08 mai. 2020.

Assessoria de Imprensa UFMG

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