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Morre Maria Efigênia Lage, pesquisadora da memória institucional da UFMG

Professora emérita foi responsável pela guarda do acervo da ditadura na Universidade, escreveu premiada coletânea sobre a história de Minas e formou gerações de historiadores

Maria Efigênia com um dos volumes da coletânea
Maria Efigênia com volumes da coletânea sobre a História de Minas que lhe rendeu o Prêmio Jabuti em 2008Foto: Arquivo Facebok Ephis

Morreu nesta terça-feira, dia 16, a professora Maria Efigênia Lage de Resende, do Departamento de História da Fafich, uma das responsáveis pela estruturação da pós-graduação na área e importante pesquisadora da memória institucional da UFMG, incluindo o período da ditadura. Maria Efigênia tinha 86 anos e lutava há algum tempo contra o câncer. Seu corpo será velado nesta quarta-feira, dia 17, das 13h30 às 16h30, no Cemitério Parque da Colina (Memorial 1) e sepultado logo a seguir.

A contribuição da professora Maria Efigênia para construção da memória da UFMG é destacada pela reitora Sandra Regina Goulart Almeida. “Ela nos deixa um legado muito importante para o futuro da nossa Universidade no momento em que a instituição se prepara para comemorar 100 anos de fundação. Sua contribuição é fundamental para a construção da história particular de muitas pessoas e para a história coletiva da instituição. Seu legado precisa ser reverenciado”, destacou a reitora.

A morte da professora foi lamentada por vários colegas do Departamento de História, muitos dos quais foram seus alunos e tiveram suas formações fortemente impactadas pela sua atuação como docente e pesquisadora. Muito emocionada, a professora Rita de Cássia Marques, aposentada da Escola de Enfermagem e atualmente docente voluntária no Departamento de História, foi aluna de Efigênia na graduação, nos anos 1980, e depois no mestrado. O início da amizade foi marcado por certo estranhamento. “Fiz uma disciplina optativa ministrada por ela, mas comecei a cursá-la fora do prazo. Efigênia era muito rigorosa e aumentou minha carga de leitura no curso. Fiquei com raiva, mas estudei muito e fui aprovada com nota 100. Ela reconheceu meu esforço e passou a me chamar para fazer parte de projetos”, relata.

Um deles foi um trabalho sobre a memória da área de Bioquímica, encomendado pelo professor Carlos Diniz, do ICB. “Maria Efigênia não queria indicar estudante de graduação, por isso me chamou para trabalhar com o professor Diniz, que era um pesquisador muito importante. Ela sabia dessa importância e do cuidado que aquele projeto merecia. Conhecia muita gente na Universidade e tinha trânsito institucional”.

Rita de Cássia define a ex-professora, amiga e colega como uma visionária que enxergava novos nichos na historiografia. “Ela implantou a área de História de Ciência, a qual me dedico hoje, e conseguiu abrir concurso para a área. Levava seus alunos para os arquivos, fazia-os vasculhar documentos, mostrava fontes. Sabia como poucos formar um pesquisador”, diz Rita de Cássia.

Drible na perda de memória
Sua colega de Departamento, Míriam Hermeto, também manteve profícua convivência com ela. A experiência mais recente, em 2019, foi um projeto de história de vida, fundamentado nas técnicas da história oral, que teve Maria Efigênia como personagem. Naquele ano, a professora já passava por um processo de perda progressiva da memória. “Foram nove sessões de entrevistas de setembro a dezembro. Aprendi demais com aquela mulher que driblava a desmemória biológica com procedimentos próprios da historiadora. O que a lembrança natural não representava, era narrado com a ajuda dos documentos que ela selecionava a cada sessão. Efigênia nos apresentou uma operação historiográfica sobre a própria trajetória, ordenada e delicadamente construída, entre os esquecimentos que lhe roubavam as palavras”, diz o trecho do texto que escreveu em sua homenagem no Facebook.

Durante a empreitada, Miriam foi acompanhada pela professora Ana Paula Sampaio Caldeira, também do Departamento de História, e do pesquisador João Victor Fonseca Oliveira. João Victor, que é docente no Centro Pedagógico e doutorando na pós-graduação, escolheu justamente a professora Maria Efigênia Lage para ser o seu objeto de estudo, materializado na dissertação (Auto)imagens de uma historiadora por escrito: memória, experiência e formação na trajetória de Maria Efigênia Lage de Resende, defendida em 2022.

Em texto enviado ao Portal UFMG, João Victor também revela sua admiração pela mestra que recorreu “ao seu ofício para sobreviver ao tempo”. “Tendo dificuldade de se lembrar naturalmente, ela se dedicava a nos receber, preparando as entrevistas a partir das fontes que ela reunia sobre si. Com os livros na mesa, idas e vindas ao seu escritório, abertura das vidraças das estantes, fotografias, anotações à caneta, e, não raras vezes, com as mãos firmes sobre as têmporas, olhos cerrados em atitude de quem luta contra o esquecimento, tentando verdadeiramente se lembrar, ela construiu sua narrativa pesquisando a própria vida”.

Miriam Hermeto, Efigênia Lage e João Victor
Miriam Hermeto, Efigênia Lage e João Victor: historiadora teve sua trajetória intelectual retratada em dissertaçãoFoto: arquivo pessoal

Docente na UFMG durante 20 anos (2002-2022), Luiz Carlos Villalta não desenvolveu sua formação na Universidade tampouco foi aluno de Maria Efigênia. Mas a influência dela sobre a sua carreira acadêmica não foi menor. Villalta conta que conheceu a amiga no fim dos anos 1990, quando ainda era professor da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop). “Fui apresentado a ela pela professora Agnela Giusta (já falecida), declarei que admirava o trabalho de Efigênia e, aos poucos, fomos nos aproximando”, relata. O relacionamento se estreitou de vez quando trabalharam juntos na organização da coletânea História de Minas, que, em quatro volumes, cobre as Minas colonial e imperial. “Foi um desafio muito grande. Trabalhamos duramente na escolha dos autores, para dar unidade e coesão aos textos e obter financiamento. Maria Efigênia era muito firme em suas posições, tivemos muitos embates, mas ela aceitava críticas. Era uma acadêmica rigorosa e impessoal”, testemunha Villalta. O esforço da dupla foi premiado com a conquista, em 2008, do Prêmio Jabuti, na categoria de Ciências Humanas.

Maria Efigênia acalentava o sonho de concluir a coletânea sobre Minas – abrangendo o período republicano –, mas o projeto não foi adiante por causa do agravamento de seu estado de saúde. Villalta pretende continuá-lo. “Quero tocar esse projeto em homenagem a ela. Se não fosse Maria Efigênia, eu talvez não tivesse vindo para a UFMG. Ela, de certa forma, despertou o meu interesse pela instituição”, revela.

Arquivos da ditadura
A professora Maria Efigênia também ocupou cargos na estrutura organizacional da UFMG. Ela foi chefe de gabinete na gestão do reitor Cid Velloso (1986-1990), época em que encontrou na Reitoria o acervo da Assessoria Especial de Segurança e Informação (Aesi), que reúne documentos datados de 1964 a 1982, como folhetos de propagandas produzidos pelo governo brasileiro, exemplares de jornais, publicações da UFMG apreendidas, fichas com informações sobre alunos ligados ao movimento estudantil, professores e servidores técnico-administrativos considerados de esquerda, docentes que assumiam cargos na administração da Universidade, além de listas de livros proibidos e ofícios de reitores.

“Efigênia guardou esse material e esperou o tempo certo até que pudesse ser organizado e disponibilizado para consultas e pesquisas”, lembra Miriam Hermeto. O acervo, que está disponível para consulta na Biblioteca Universitária, é base para inúmeras pesquisas e artigos. Em depoimento à TV UFMG, em 2017, a própria Efigênia Lage relata que os milhares de documentos encontrados foram discretamente armazenados no cofre da Imprensa Universitária – onde eram rodadas as provas do vestibular – e inventariados de janeiro a dezembro de 1989.

Outro trabalho importante de valorização da memória institucional foi o livro Memória de reitores (1961-1990), que ela organizou com a professora Lucília de Almeida Neves. A obra reúne entrevistas com os reitores Orlando Carvalho, Aluísio Pimenta, Marcelo Vasconcellos Coelho, Eduardo Osório Cisalpino, Celso Vasconcellos Pinheiro, José Henrique Santos e Cid Veloso.

Maria Efigênia Lage de Resende nasceu em 1938, em Dores de Guanhães, no Vale do Rio Doce. Mudou-se com a família para Belo Horizonte, em 1940, e estudou no Colégio Municipal de Belo Horizonte nos anos 1950. Fez licenciatura em História na UFMG, nos anos 1960, e logo depois atuou como docente nos antigos colégios Universitário e de Aplicação. Ela foi professora em vários colégios de Belo Horizonte (Santa Maria, Municipal, Manuel Bandeira e Pitágoras) e, em 1974, tornou-se professora assistente de História do Brasil na UFMG. Foi vice-diretora da Fafich (1979-1982), chefe de gabinete na gestão Cid Velloso (1986-1990) e aposentou-se no ano 2000 como professora titular. Em 2009, recebeu o título de professora emérita da UFMG.

Viúva, a professora deixou as filhas, Michele e Adrienne, e os netos, Bruno e Vinícius.

Flávio de Almeida