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Programa Conexões recebe Lucas Veiga, um dos expoentes da psicologia preta no Brasil

Em entrevista, psicólogo fala sobre seu primeiro livro e a importância de se atentar para a saúde mental da população negra do país

Primeiro livro de Lucas Veiga, ‘Clínica do Impossível: linhas de fuga e de cura’, aborda relações entre a saúde mental de pessoas negras e o racismo no Brasil
Primeiro livro de Lucas Veiga, ‘Clínica do Impossível: linhas de fuga e de cura’, aborda relações entre a saúde mental de pessoas negras e o racismo no Brasil Francisco Costa/Divulgação

Segundo dados divulgados em 2019 pelo Ministério da Saúde, o perfil das pessoas que mais cometeram suicídio no Brasil nos últimos anos era jovens negros de até 29 anos. A mesma pesquisa indica que pessoas negras têm até 45% mais chance de desenvolver problemas com depressão do que pessoas brancas. Essa probabilidade maior está relacionada, muitas vezes, ao sofrimento causado pelo racismo estrutural e indica que ainda há um longo caminho a ser percorrido quando o assunto é a saúde mental da população negra no país.

Inspirado por suas experiências clínicas, o psicólogo Lucas Veiga, conhecido como um dos expoentes da psicologia preta no Brasil, lançou recentemente o seu primeiro livro, Clínica do impossível: linhas de fuga e de cura. A obra reúne dez artigos publicados ao longo dos últimos anos e aborda a relação entre a saúde mental da população negra e o racismo no Brasil. Lucas Veiga é mestre em Psicologia Clínica pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e idealizador da plataforma descolonizando.com, que reúne textos, vídeos e cursos sobre saúde mental, questões raciais e anticoloniais. Um de seus cursos, intitulado Introdução à Psicologia Preta, já teve mais de 1.200 alunos em oito capitais, no Distrito Federal e também em formato virtual. 

Nesta quinta-feira, 27, o programa Conexões recebeu o psicólogo e escritor Lucas Veiga para conversar sobre o lançamento desse primeiro livro e sua pesquisa dentro da psicologia preta. O autor falou sobre a compreensão dessa abordagem clínica como uma vertente da psicologia, que surgiu no final da década de 1960 nos Estados Unidos, a partir do trabalho de intelectuais negros e negras interessados em investigar o cuidado com as singularidades e subjetividades negras. O professor destacou que há particularidades territoriais dentro das pesquisas nessa abordagem, mas que é possível pensar a realidade do Brasil com apoio dos estudos estadunidenses no que diz respeito às experiências comuns, como a violência racial. 

“Quando a gente fala em saúde mental da população negra, a gente não está falando apenas de uma dimensão homogênea. Pensar em saúde mental da população negra tem uma dimensão de afirmação da singularidade, de afirmação da diferença que compõe essa população. Cada pessoa que chega na terapia leva suas questões, sua história individual, seus traumas, seus sonhos e desejos, que são singulares. O ponto comum, que eu percebo que se repete na clínica com pessoas negras, é a experiência com a violência racial”, explicou o psicólogo. Veiga também comentou sobre o efeito do não pertencimento e da possibilidade que o encontro entre pacientes negros e negras e analistas negros e negras oferece, de restabelecimento do pertencimento, por meio do aquilombamento, conceito trabalhado por pesquisadores e intelectuais brasileiros da psicologia preta. 

O especialista explicou a importância desse trabalho clínico na criação de novos modos de viver, de expressar a subjetividade e construir relações. “Diante de um cenário de opressão racial, por quais caminhos eu posso experimentar a liberdade? Por quais caminhos eu me sinto livre? Quais são as vivências, experiências, articulações e encontros em que eu me sinto exercendo quem eu sou, exercendo a liberdade de ser pessoa e não estar totalmente submetido ao imaginário racista sobre o que é ser negro, o que é ser negra?”, questionou.

Ouça a entrevista completa no Soundcloud.

O livro Clínica do Impossível: linhas de fuga e de cura é publicado pela Editora Telha e pode ser adquirido no site da editora. Mais informações sobre o psicólogo Lucas Veiga e seu trabalho estão disponíveis na plataforma descolonizando.com.

Produção: Carlos Ortega, sob orientação de Luiza Glória
Publicação: Enaile Almeida, sob orientação de Hugo Rafael