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Mercado de trabalho impõe barreiras à população trans

Assunto é abordado no programa 'Outra estação'; TV UFMG mostra a violência sofrida pela comunidade LGTBI+ e a dificuldade de acesso à educação

Giovanna Heliodoro, mulher trans, negra, de 23 anos
A afrotransfeminista Giovanna Heliodoro tem um canal em que compartilha suas experiências Arquivo pessoal

O Brasil é o país que mais mata travestis e transexuais. Só em 2019 foram registradas ao menos 124 mortes. Desse total, só 11 tiveram suspeitos identificados pela polícia, de acordo com o estudo Dossiê de Assassinatos e Violência contra Travestis e Transexuais Brasileiras, divulgado nesta semana pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra). Outra estatística mostra que a expectativa dessa população é baixíssima. Segundo a União Nacional LGBT, homens e mulheres trans vivem apenas 35 anos, enquanto a expectativa de vida da população em geral, segundo o IBGE, é mais que o dobro desse valor: 75,5 anos.

Além do descaso da segurança pública, essa população precisa lidar com outras graves violações de direitos humanos, como falta de acesso a serviços básicos de saúde e educação, por conta do preconceito, discriminação e desinformação sobre a realidade dessa parcela da sociedade. Outro direito negado a homens e mulheres trans é o acesso ao mercado de trabalho. 

Como então as pessoas trans no Brasil conseguem se sustentar e sobreviver? Existem iniciativas que ajudam nesse processo? No mês da Visibilidade Trans, o programa Outra estação, da Rádio UFMG Educativa, reúne depoimentos de homens e mulheres trans. Eles contam como é ser trans no Brasil e falam sobre acesso e permanência no mercado de trabalho. O programa também aborda iniciativas do poder público e da própria comunidade trans voltadas à inclusão dessa parcela da população em empresas.


Ronimax de Souza
Transfobia afastou Ronimax de Souza dos estudos e do mercado de trabalho formalArquivo pessoal

Falta de dados
No primeiro bloco, a historiadora, comunicadora, artista independente, social media, empreendedora e ativista Giovanna Heliodoro, uma mulher trans e negra, relatou que ainda existe um despreparo na assistência às pessoas trans até quando elas vão buscar atendimento no sistema público de saúde. Giovanna Heliodoro reforçou que já passou por inúmeros constrangimentos em consultórios médicos. 

Outro depoimento que mostra como é a realidade da população trans no Brasil é o da  atriz, compositora e transexual Ronimax de Souza. Ela relatou como a transfobia que sofreu dos colegas da escola e a falta de compreensão dos professores foram cruciais para seu afastamento dos estudos.

As políticas públicas para atender às demandas de homens e mulheres trans esbarram na falta de dados oficiais, confirmada, inclusive, à UFMG Educativa pelas pastas encarregadas da área de direitos humanos nas três esferas governamentais: federal, estadual e municipal.

Para entender como essa ausência de dados impacta a elaboração de políticas públicas para a população trans, a reportagem ouviu o pesquisador do Grupo de Estudos Diverso da UFMG João Felipe Zini e a presidente da Antra Keila Simpson.

Ouça o bloco 1 do programa

Trans e mercado de trabalho

Anyky Lima é travesti e tem 64 anos. Ela já teve que trabalhar como prostituta para se sustentar e hoje atua em movimentos sociais voltados para a população LGBT+
Anyky Lima, 64 anos, milita em movimentos dedicados à população LGBT+ Reprodução Facebook

O segundo bloco do programa Outra estação fala sobre a inserção das pessoas trans no mercado de trabalho. Embora não existam estatísticas sobre a taxa de desemprego entre homens e mulheres trans, relatos de pessoas da própria comunidade e de pesquisadores que estudam o tema mostram que a maioria delas não tem nem mesmo a oportunidade de participar de uma entrevista de emprego por conta da transfobia. 

Mesmo as pessoas trans que conseguem passar da etapa de entrevistas e garantem uma vaga de emprego enfrentam, muitas vezes, o preconceito dentro do ambiente de trabalho, o que faz com que não permaneçam na vaga. Essa parte do programa traz depoimentos que mostram as barreiras enfrentadas pela população trans quando o assunto é acesso ao emprego e aborda iniciativas que buscam quebrá-las.

Ouça o bloco 2 do programa

Para saber mais

Dossiê da Antra sobre assassinatos e violência contra travestis e transexuais brasileiras em 2019
Dissertação E travesti, trabalha? divisão transexual do trabalho e messianismo patronal, defendida por João Felipe Zini na Faculdade de Direito da UFMG
Pesquisa Transexuais: transpondo barreiras no mercado de trabalho em São Paulo?, de Cecília Barreto de Almeida e Victor Augusto Vasconcellos
Diverso UFMG - Núcleo Jurídico de Diversidade Sexual e de Gênero
Canal Trans Preta
Centro de Referência LGBT em Belo Horizonte

Produção
O episódio 27 do programa Outra estação teve apresentação de Arthur Bugre, produção de Breno Benevides e Arthur Bugre, edição e coordenação de jornalismo de Paula Alkmim e trabalhos técnicos de Breno Rodrigues. 

O Outra estação explora, semanalmente, um tema de interesse social, buscando informações e conversando com pessoas que possam trazer contribuições sobre o assunto. Na Rádio UFMG Educativa (frequência 104,5 FM), vai ao ar às quintas-feiras, às 18h, com reprise às sextas, às 7h30. Ele também está disponível nos aplicativos de podcast.

Ser gay no Corpo de Bombeiros
Outro programa da Rádio UFMG Educativa, o Aqui tem ciência, que vai ao ar na segunda-feira, dia 30, mostra como o discurso de masculinidade que é muito forte no Corpo de Bombeiros afeta o cotidiano profissional de bombeiros gays. O assunto é tema da pesquisa de mestrado de Leonardo Tadeu Santos, defendida no programa de Pós-graduação em Administração da UFMG.

Violência, educação e capacitação

A visibilidade trans também inspirou a produção de três vídeos pela TV UFMG: o primeiro sobre as dificuldades de acesso da comunidade LGBTI+ à educação, o segundo sobre a violência que sofre no dia a dia e o terceiro sobre capacitação que profissionais de saúde receberam de estudantes da UFMG para atender pessoas trans. Assista: