Boletim

Nº 1934 - Ano 42 - 28.03.2016

Em condições extremas

Azul e diferente

Fungo azul descoberto por pesquisadora do ICB revela diversidade de micro-organismos na neve da Antártica

Um fungo morfologicamente diferente está entre as mais recentes descobertas da equipe do projeto MycoAntar, que esteve no continente gelado no final do ano passado durante atividades da Operação Antártica XXIV. O achado faz parte da pesquisa de doutorado de Graciéle de Menezes, que investiga, com outros pesquisadores do Departamento de Microbiologia do Instituto de Ciências Biológicas da UFMG e sob orientação do professor Luiz Henrique Rosa, as especificidades dos fungos que habitam as condições extremas do continente glacial.

A pesquisadora esteve a bordo do Navio de Pesquisa Polar Almirante Maximiano por dois meses, no final de 2015. Nesse período, coletou amostras de neve e gelo em ilhas da Península Antártica e encontrou um fungo na neve cuja morfologia é diferente dos fungos observados na região. 

“Trata-se de um fungo de coloração azul, que os pesquisadores que trabalham há algum tempo na região não tinham visto”

“Trata-se de um fungo de coloração azul, que os pesquisadores que trabalham há algum tempo na região não tinham visto”, explica Graciéle. Ela salienta que são necessários estudos moleculares e morfológicos posteriores para a confirmação do ineditismo da descoberta. “Morfologicamente, o fungo parece inédito, mas é preciso analisar seu DNA e suas microestruturas, para termos certeza.”

Em seu projeto de doutorado, no Programa de Pós-graduação em Microbiologia, a pesquisadora observa os diferentes tipos de fungos que habitam neve e gelo da Antártica. Nos dois meses de expedição a bordo do Almirante Maximiano, ela coletou 80 fungos filamentosos, que são aqueles formados por hifas (estrutura semelhante a um filamento microscópico), e 120 leveduras, fungos unicelulares. Os fungos são invisíveis a olho nu na neve e no gelo. Por isso, foi necessário o processamento das amostras no Laboratório de Microbiologia montado no navio para o cultivo das espécies obtidas.

Placa de cultivo
Foca Lisboa / UFMG

“Coletamos amostras de neve e gelo e, no laboratório, filtramos esse material derretido em uma membrana especial, onde as células, hifas e esporos dos fungos ficaram depositados. As membranas com fungos são colocadas em placas de Petri, e, assim, eles crescem em meios de cultivo específicos. A partir daí, iniciamos o processo de isolamento”, diz a pesquisadora.

O isolamento consiste na separação dos diversos tipos de fungos que estavam presentes na neve e no gelo e que crescem no meio de cultivo. “Esse processo, que visa obter uma cultura pura de um fungo, é bem trabalhoso, mas é ele que nos possibilita saber exatamente qual fungo estava presente em qual região”, explica Graciéle.

Depois do isolamento das amostras, é realizada a análise morfológica dos fungos, ou seja, são investigadas a forma e a estrutura dos filamentos e leveduras coletados. Nessa etapa, surgiu o fungo azul, com características até então desconhecidas pelo grupo de pesquisadores. “Ele tem uma coloração que ainda não havia sido observada em fungos filamentosos da Antártica”, reforça Graciéle. 

A pesquisadora afirma que, depois da análise morfológica, será feita a análise molecular dos fungos trazidos da Antártica. “Vamos extrair o DNA e fazer o sequenciamento genético. No caso do fungo azul, esse sequenciamento vai nos dizer se ele é realmente uma espécie nova de fungo, ainda não descrita, ou se é uma espécie já conhecida apenas com características morfológicas distintas, como essa coloração azul”, explica.

Atividade anticongelante

Uma das características que a pesquisadora pretende investigar, além da diversidade, é a atividade anticongelante dos fungos que habitam regiões com temperatura inferiores a -20°C. “Os fungos que vivem na Antártica não sobreviveriam sem uma adaptação especial a esse ambiente extremo. Queremos descobrir se essa característica advém de substâncias como enzimas, proteínas ou polissacarídeos (tipos de açúcares), por exemplo. Nossas conclusões poderão, posteriormente, ser aplicadas em estudos para desenvolvimento de produto anticongelante para ser utilizado, por exemplo, na proteção de sensores de aeronaves a 10 mil metros de altura, onde a temperatura pode chegar a -60°C. É uma pesquisa que pode trazer vários benefícios para a sociedade”, afirma Graciéle. 

Ela acrescenta que a Antártica, apesar de distante e pouco conhecida, precisa ser mais estudada, pois é o “termômetro da Terra”. “­Todas as mudanças que ocorrem no clima global são primeiramente sentidas na Antártica. Se entendermos o que acontece lá, poderemos inferir o que pode acontecer em outras regiões do planeta, incluindo as mudanças climáticas no Brasil”, conclui.

Graciéle no laboratório do navio: fungo com coloração diferente
Graciéle no laboratório do navio: fungo com coloração diferente Luiza Carvalho/MycoAntar

MycoAntar 

A pesquisa de doutorado de Graciéle de Menezes integra o projeto MycoAntar: diversidade e bioprospecção de fungos da Antártica, coordenada pelo professor Luiz Rosa. O grupo trabalha na Antártica desde 2006. Os pesquisadores realizam trabalhos de taxonomia, diversidade, ecologia e biotecnologia de fungos. As pesquisas visam ampliar o conhecimento da distribuição e diversidade da comunidade de fungos presentes da Península e continente Antártico, avaliar o potencial dos fungos como fonte de substâncias especiais, formar recursos humanos e estabelecer parcerias com outros grupos no Brasil e no exterior.

Luana Macieira