Heloisa Starling, da UFMG, mostra o que era ser republicano no Brasil Colônia e como a palavra república tornou-se uma “palavra vazia"

Como pode uma tradição acabar sendo esquecida? Como foi que ela desapareceu quase sem deixar vestígio? Na República que o final do século 19 remeteu ao presente, os marcos que fundaram o republicanismo do período colonial estavam descaracterizados, e a antiga tradição não conseguiu encontrar sua instituição apropriada.

Extraído da introdução do novo livro da historiadora e cientista política Heloisa Starling, o trecho acima oferece uma boa pista da motivação e dos objetivos da empreitada, iniciada há pouco mais dez anos. Em Ser republicano no Brasil Colônia – A história de uma tradição esquecida (Companhia das Letras), a professora da UFMG revela que os valores republicanos guiaram sonhos, projetos e revoltas de brasileiros muito antes da derrubada do Império, em 1889.

“O repertório da cultura do republicanismo, baseada em princípios como bem público, igualdade e justiça, circulou intensamente entre os colonos, mas eles não estavam interessados na doutrina ou em construir uma teoria. O que se buscava era a aplicabilidade daquele ideário para entender a crise e enfrentar a conjuntura desfavorável”, explica Heloisa, acrescentando que é possível detectar influências das matrizes romana (da Antiguidade), italiana (Renascimento), inglesa (século 17), norte-americana (séculos 18) e francesa (séculos 18 e 19).

Conceitos, argumentos e formas de linguagem eram veiculados nas cidades em panfletos de algumas dezenas de páginas ou em textos mais curtos, pregados nas ruas. “Na Conjuração Baiana, livros manuscritos sobre a Revolução Francesa atingiram a população pobre de Salvador. No Rio, traduções de jornais da Europa eram distribuídas nas boticas. As ideias se movimentavam de forma criativa”, conta Heloisa Starling, que visitou arquivos do Brasil, de Portugal e da França e contou com a ajuda de historiadores especialistas em século 18, como Evaldo Cabral de Melo, Alberto da Costa e Silva e Júnia Ferreira Furtado, colega da autora na UFMG.

Personagem feminina

A pesquisadora dedicou parte significativa de seu esforço a movimentos como os que agitaram Bahia, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Pernambuco, entre as últimas décadas do século 17 e o início do século18. Essas conjurações concentravam propostas de república. “A historiografia sempre chamou a atenção para a república formalmente inaugurada no final do século 19. Por que estudamos tão pouco as conjurações? Olhamos para elas como se não tivessem importância e não sabemos direito o que elas foram”, comenta Heloisa Starling, ressaltando que foi na Conjuração do Rio de Janeiro que apareceram com força, pela primeira vez, os conceitos de democracia e bem comum.

A professora do Departamento de História da UFMG revela que sempre lhe causou incômodo a forma como, em geral, a historiografia deprecia a Conjuração ­Mineira. E diz que foi longe na investigação sobre o assunto. Como resultado, a obra Ser republicano no Brasil Colônia destaca informações pouco conhecidas ou mesmo inéditas. Por exemplo, ela mostra que um segundo exemplar do livro que continha a Constituição dos estados americanos – o primeiro esteve em poder de Tiradentes e dos inconfidentes mineiros – chegou a Pernambuco e influenciou a Constituição da Primeira República, idealizada pelos revoltosos de 1817. Heloisa também descobre mais sobre uma personagem feminina, a fazendeira Hipólita Jacinto, cuja participação na Conjuração Mineira transcendeu o papel de musa, normalmente atribuído às mulheres ligadas ao movimento.

Outra questão que moveu a investigação de Heloisa Starling é a razão pela qual o republicanismo, tradição tão rica e libertária, perdeu-se no tempo. “No final do livro, mostro que a tradição está esquecida, mas não desaparecida. Movimentos dos séculos 20 – como Canudos e a Revolta da Vacina – e até mais recentes são lampejos”, ressalta a autora. “Hoje todo mundo se diz republicano, mas não sabemos bem o quer dizer, e república se tornou uma palavra vazia. Por isso é fundamental resgatar a tradição, que oferece ferramentas para entender o presente.”

Livro: Ser republicano no Brasil Colônia – A história de uma tradição esquecida
Autora: Heloisa Murgel Starling
Editora: Companhia das Letras
384  páginas / R$ 66,90 (impresso) e R$ 39,90 (e-book)

Itamar Rigueira Jr. - Boletim UFMG 2.024

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Assessoria de Imprensa da UFMG

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