Artilharia pesada contra o zika

Amor e poder

Lendo Memorial de Maria Moura (1992), obra-prima de Rachel de Queiroz (1910-2003), deparo-me com uma fala da personagem que, de certa forma, expressa sua filosofia de vida: “eu sentia (e sinto ainda) que não nasci pra coisa pequena. Quero ser gente. Quero falar com os grandes de igual para igual. Quero ter riqueza! A minha casa, o meu gado, as minhas terras largas. A minha cabroeira me garantindo. Viver em estrada aberta e não escondida pelos matos em cabana disfarçada”. A escritora cearense sugere que a improvável, mas não impossível, junção de poder e amor se faz necessária. Se escolhermos só o amor ou só o poder, ficaremos imobilizados, apenas recriando as realidades existentes, ou pior que isso. Para lidarmos com sistemas complexos, Rachel de Queiroz traz à baila a necessidade de que caminhemos por entre eles, de preferência acompanhados de todos os interessados na mudança e equilibrando nossos impulsos de amor e de poder.

Como utilizar os impulsos do amor e do poder individual e socialmente? O Brasil só poderá superar o estado de gritante injustiça social e extrema apatia quando, de um lado, pessoas e organizações que abusam do poder e, de outro, pessoas e organizações que pregam um amor anêmico puderem encontrar o justo equilíbrio entre essas duas forças. É bom lembrar que cada um de nós tem, mais ou menos, os seguintes núcleos interiores: o intelectual, o emocional, o físico, o sexual, o político-social, o sensível e o místico-religioso. Acontece que ainda temos um sistema educacional respaldado na ideia de que o mais importante é o desenvolvimento intelectual. Os demais núcleos que o acompanhem se forem capazes. Como o mercado de trabalho precisa de mão de obra especializada e de cérebros condutores, o processo educativo se transformou em atividade formadora de pessoas aptas ao desempenho intelectual. Porém, como a pessoa é constituída dos vários outros núcleos, e a vida exige mobilização de todos eles, na hora em que se impõe a presença madura e integral desses núcleos, eles não se mostram igualmente evoluídos. É muito difícil que as pessoas considerem, com abertura e honestidade, o que há de evoluído e de involuído em cada um dos núcleos que caracterizam o seu complexo humano.

Uma coisa é certa: quanto mais capacidade se tem para diferenciar realidades, mais evolução, mais conhecimento, mais sabedoria, mais experiência se adquire. A realidade é infinita com a aparência de estar cristalizada. Cada núcleo precisa de muito e constante trabalho para alcançar um grau de conhecimento diferenciado de si próprio. Só assim poderá surgir uma possibilidade de desenvolvimento integrado e harmônico e, por isso mesmo, penoso, trabalhoso e muito difícil. A verdadeira riqueza encontra-se na capacidade de colher e degustar, até o fim, as sensações e os significados positivos inerentes aos objetos, aos acontecimentos e às ideias de todos os dias. O progressivo aprimoramento dessa sensibilidade deve-se à educação do gosto. Quer dizer, precisamos praticar tanto o amor (impulso para a união) quanto o poder (impulso para a autorrealização). Amor e poder nos ajudam a atribuir mais significado às coisas. Como propõe Shakespeare, em Hamlet: “A verdadeira substância da ambição é a sombra de um sonho”.

As formas mais comuns empregadas no enfrentamento dos desafios sociais mais complexos são os extremos: guerra agressiva ou paz submissa. Nenhuma funciona. Podemos tentar forçar nossa vontade usando armas, dinheiro ou votos, sem ligar para o que as pessoas querem, mas, inevitavelmente, elas reagirão. Ou podemos simplesmente não fazer nada nem incomodar ninguém – mas isso só deixa nossa situação exatamente como está. Na esfera nacional, podemos manobrar para conseguir o que queremos ou deixar que outros façam o que quiserem. Prefiro o respeito shakespeariano proposto na peça A megera domada: “Como advogados procedamos, os quais, embora com calor discutam, depois comem e bebem como amigos”.

Um personagem de Rent (2008), musical da Broadway, composto por Jonathan Larson, que trata das dificuldades dos artistas e músicos em Nova York, diz: “O oposto da guerra não é a paz, é a criação!”. Para enfrentar nossos desafios sociais mais complexos, carecemos de uma nova forma que não seja nem guerra nem paz, mas criação coletiva. Como podemos cocriar novas realidades sociais? Precisamos trabalhar com duas forças distintas e fundamentais que estão em tensão: o poder e o amor. Segundo o teólogo e filósofo Paul Tillich (1886-1965), entende-se por poder “o impulso de tudo que vive para realizar a si mesmo com crescente intensidade e extensividade”. Nesse sentido, o poder é o impulso para cada um alcançar o seu propósito, cumprir sua tarefa, crescer. Já o amor é definido por Tillich como “o impulso para a união do que está separado”. Ou seja, é o impulso para reconectar e integrar o que se tornou ou o que parece fragmentado.

Considerando a conjuntura brasileira, o compositor e músico Nano Cordel, em Jogo de cintura (1989), ofereceu o mapa da mina no sentido lúcido e lúdico de entender o poder e o amor: “Você tem que ter jogo de cintura, olho na mistura, não se incomodar/De vez em quando nessa vida a gente engole um caô/Pra se arrumar, pra se arrumar, pra namorar, pra namorar/Pra ser feliz, pra ser feliz, pra ter amor/Ê a ô, isso aqui vai melhorar/Ê a ô, se a gente se enganchar/Ê a ô, era bom que fosse já/Você quer eu também quero, tá faltando começar”. Nossa sociedade está cada vez mais cheia de vozes, ideias e culturas diversas e fortes. Eis a principal razão pela qual, ao enfrentar nossos desafios mais complexos, não podemos nos valer apenas do poder, mas também do amor.

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Marcos Fabrício Lopes da Silva / Professor da Faculdade JK, no Distrito Federal. Doutor e mestre em Estudos Literários pela UFMG