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Universo Literário repercute a morte de Carlos Heitor Cony

Vida do escritor foi marcada por uma relação conturbada com a ditadura militar no Brasil, o que lhe rendeu seis prisões, além de muitos textos

Carlos Heitor Cony: oposição ao Golpe de 64
Carlos Heitor Cony: oposição ao Golpe de 64 ABL / Divulgação

A literatura brasileira perdeu um de seus grandes nomes nos primeiros dias de 2018. Na última sexta-feira, 5 de janeiro, morreu Carlos Heitor Cony. O escritor, que era membro da Academia Brasileira de Letras (ABL) desde 2000, publicou diversos contos, crônicas e romances. O mais famoso deles foi Quase Memória, de 1995, cuja inspiração foi a relação com seu pai no trabalho na editoria de um jornal.

Cony, que também era jornalista, foi ainda contemplado com os prêmios Jabuti e Machado de Assis, as duas maiores honrarias para escritores brasileiros. A vida do escritor também foi marcada por uma relação conturbada com a ditadura militar no Brasil, o que lhe rendeu seis prisões, além de muitos textos.

“Até o Golpe de 64, grande parte da imprensa e também da população comprou a ideia de que o país estava em desordem. Muitas eram as vozes e os movimentos contrários às reformas de João Goulart e isso fez com que muitas pessoas e jornais acreditassem que aquele golpe pudesse reconstituir a ordem perdida”, contextualizou o jornalista Maurício Guilherme Silva Júnior, autor da tese Contra a “Revolução dos Caranguejos” – Carlos Heitor Cony e as crônicas de resistência ao golpe militar de 1964 (defendida no Programa de Pós-graduação em Literatura da UFMG, em 2012), em entrevista ao programa Universo Literário nesta terça-feira, 9 de janeiro.

Maurício Guilherme destaca que Carlos Heitor Cony foi uma das primeiras vozes a se levantar contra o golpe militar no Brasil. “O Cony era uma das pessoas que não via com bons olhos o que grande parte da imprensa chamava de reconstituição da ordem. Já no dia 2 de abril de 1964 [um dia após o golpe militar, em 1º de abril], ele começa a escrever uma série de crônicas bastante contundentes contra aquele golpe militar, chamado por ele de Revolução dos Caranguejos, ou seja, uma revolução que anda pra trás”, explicou.

Na visão do professor, o grande legado da produção literária de Cony é uma visão bastante particular acerca da humanidade e do lugar do homem no mundo. “A gente percebia essa preocupação dele em compreender exatamente o que é o homem, o que o homem deseja, de que modo o homem consegue se relacionar com os outros homens e com a própria natureza”, defendeu Maurício Guilherme, também professor de comunicação do Centro Universitário de Belo Horizonte (UniBH).

Segundo o professor, uma preocupação existencialista muito forte marca toda a obra de Carlos Heitor Cony. “Uma peculiaridade de sua obra, que é a sua principal contribuição para a literatura brasileira, é justamente essa sua constante explanação acerca do lugar do homem no mundo, o homem num embate permanente para perceber quem ele é”, afirmou.

Ouça a conversa com Michelle Bruck