Entre as ações da Universidade Federal de Minas Gerais para o enfrentamento à pandemia do novo coronavírus, estão debates, conferências e encontros on-line para apresentar as contribuições da Instituição nesse esforço coletivo, discutir evidências científicas para o distanciamento social e debater o planejamento para a retomada das atividades em contextos gerais e específicos. A programação é divulgada no Portal da UFMG, no site da Campanha #Nós UFMG e no site do programa Integração Docente.

Confira alguns eventos realizados e assista aos vídeos no Youtube da CAC.


05/08/2020

Dirigentes tiram dúvidas sobre o ensino remoto emergencial

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03/08/2020

'Ensino remoto é como um suplemento, nunca substituirá o presencial', diz Sandra Goulart

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29/07/2020

Tempos presentes avalia as contribuições das universidades brasileiras no desenvolvimento de vacinas

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22/07/2020

Colaboração é chave para a retomada dos cursos de ciências agrárias

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09/07/2020

Cursos da área de educação projetam impacto da retomada sobre a formação de professores

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08/07/2020

No Dia da Ciência, especialistas debatem as pandemias do presente e as do passado

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30/06/2020

As múltiplas faces do ‘novo normal’: professores da UFMG analisam dimensões acadêmica, política, cultural e sanitária do mundo pós-pandemia.

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24/06/2020

Comunidades das engenharias e exatas defendem práticas inovadoras e inclusivas.

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17/06/2020

Além da pandemia: dirigentes da UFMG refletem sobre o presente e 'indagam o futuro’.

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10/06/2020

Cursos da saúde abrem discussões sobre retorno das atividades acadêmicas.

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29/05/2020

Em evento on-line, UFMG reafirma compromisso com a inclusão e qualidade. Fórum discutiu, nesta sexta-feira, os impactos da pandemia no ensino superior.

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29/04/2020

Reflexão e ações concretas marcam contribuição da UFMG durante a pandemia. Em simpósio pela internet, dirigentes e pesquisadores abordam desafios, medidas internas e iniciativas em diversos campos.

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Confira algumas reflexões apresentadas nas abas abaixo:

  1. Reflexões sobre a nova normalidade, por Teresa Kurimoto

    Texto produzido pela Professora Adjunta da Escola de Enfermagem da UFMG e integrante da Comissão Permanente de Saúde Mental da UFMG, Teresa Cristina da Silva Kurimoto, para o webinar realizado em 30/06/2020, "Reflexões sobre a Nova Normalidade". Acesse o PDF aqui.


    Reflexões sobre a nova normalidade:

    Desafios da pandemia, relações interpessoais e bem comum ou

    ‘Aquilo que não havia, acontecia’. (1)


    Empresto de Guimarães Rosa, escritor e sábio com uma capacidade rara de traduzir o indizível,essa frase que diz bem dos tempos que vivemos. Seria difícil imaginar que estaríamos vivendo essa realidade, mais próxima de um filme apocalíptico de gosto e qualidade duvidosas(vírus, ausências do poder público  e agora, gafanhotos!). Não sei se tenho ou trouxe grandes novidades, ou mesmo boas notícias. Vivemos tempos, nos quais coisas inimagináveis acontecem.

    Segundo Freud (2010 [1930]: p.31) (2), “O sofrer nos ameaça a partir de três lados: do próprio corpo, que fadado ao declínio e à dissolução, não pode sequer dispensar a dor e o medo, como sinais de advertência; do mundo externo, que pode se abater sobre nós com forças poderosíssimas, inexoráveis, destruidoras; e, por fim, das relações com os outros seres humanos. O sofrimento que se origina desta fonte nós experimentamos, talvez, mais dolorosamente que qualquer outro”.

    A Pandemia do novo Coronavírus, COVID-19, nos impôs condições radicais: ficar em casa; aqueles que precisam ir e vir precisam fazê-lo com verdadeiros protocolos, extensos e complexos, que por si só anunciam que a situação é grave; abrir mão de contatos físicos, algo muito arraigado em nossa cultura; assim como também é arraigado o levar pouco a sério doenças e alguns riscos;estar mais atentos e atentas para cuidados higiênicos mais rigorosos e etiqueta respiratória; evitar aglomerar-se, seja voluntariamente em shows ou jogos de futebol, ou involuntariamente, no transporte público, por exemplo.  Diante de tantas imposições é comum que se observem nas pessoas posturas de negação, medo ou pânico, de forma variadas, podendo até mesmo, chegar a seus extremos.

    De certa forma, é como se os três lados ou direções pelas quais o sofrer nos ameaça, estivessem, ao mesmo tempo atuantes. A ameaça de um vírus que vem dizimando, a cada dia, um grande número de pessoas, expõe, escancara a fragilidade do nosso corpo e sua finitude. Ainda que saibamos que uns, mais que outros, estejam mais frágeis nesse embate (considerando as desigualdades sociais, sabemos que uns são mais fragilizados que outros), todos, de uma forma ou de outra estamos sob a égide do risco.Pode-se pensar que agora experimentamos uma condição em que os limites do eu, do outro e do mundo externo,  tornaram-se borrados. Nesse momento, o corpo e a forma como se lida com ele, ultrapassa a condição de uma decisão individual, posto que tal decisãoimplica na segurança ou não de todos os que estão ao nosso redor, incluindo aqueles e aquelas que nunca vimos. Coisas simples, tais como, usar máscara ou não usá-la, sair às ruas ou ficar em casa, manter distâncias seguras ou não já não são decisões de cunho exclusivamente privado, pois dessas decisões de cada um, dependem a segurança e a vida de todos.

    Dessa forma, as nossas relações, desafiadoras por si só, vão ganhando novos elementos. Se, antes, o ir e vir veloz do cotidiano, mal nos permitia ver o outro, agora, para muitos, estar em casa pode significar, por exemplo, conviver com aqueles com quem só se coabitava. Pensando e repensando as relações, nesses tempos de parada, surge uma outra questão: será mesmo que o grande desafio está, exclusivamente, nessa convivência intensa com o outro? Não será que o‘se aguentar’ cotidianamente, nesse tempo mais esvaziado de idas e vindas, de inúmeros afazeres, do consumo (por vezes, voraz e compulsivo), também não se torna um desafio? Não se pode desconsiderar aqui, as condições inumanas de quem está às voltas com a violência e intolerância, nos espaços domésticos, onde o ato, covarde e cruel, surge ali onde a palavra não encontra lugar. Fenômeno que tem se mostrado muito presente e agravado pelo contexto da Pandemia.

    Retomando, no mesmo texto, mais à frente, Freud2(2010 [1930]: p.31) segue dizendo: “Não é de admirar, que sob pressão dessas possibilidades de sofrimento, os indivíduos costumem moderar suas pretensões de felicidade [...] se alguém se dá por feliz ao escapar à desgraça e sobreviver ao tormento...”. Para muitos essa é uma realidade, um objetivo: basta conseguir ‘chegar ao fim da pandemia’ sem ter se contaminado para se sentir um afortunado.

    Nessa direção, pode-se construir uma visão de que esse tempo de distanciamento social, seja um tempo de ‘não vida’, de  vida em suspenso, entre parênteses. Essa posição traduz uma ideia de que nesse tempo-lacuna, entre o antes e o pós- pandemia, torna-se tempo da espera, inerte. É como se o que se vive hoje ‘não fosse pra valer’, não fosse ‘de verdade’. Fosse um arremedo ou um rascunho de vida o qual será passado a limpo num pós pandemia, por vezes pensado, como um retorno a partir do ponto em que paramos.

    Sim, não se contaminar, não ver os seus amores, afetos, próximos e próximas, contaminados ou contaminadas, é muito bom. Mas pode ser pouco. Nessa direção, a meu ver, se inscreve, num outro lado, o movimento da Nova Normalidade3. Movimento com grande legitimidade e relevância, quando propõe a adesão à um modo de vida diametralmente oposto ao que tínhamos e convida as pessoas à aderirem ao manifesto de forma a, “...coletivamente, tensionar estruturas, narrativas e práticas que antes eram consideradas normais” (3). O movimento convida a pensar novas narrativas em torno de temas como cooperação, inclusão, transformação social, solidariedade, dentre outros. Muito do que muitos desejam para si e para o mundo. Tomá-lo como horizonte, como direção, como causa, é algo interessante. Tomá-lo em sua totalidade, pode ser muito.Nesse momento, análises do tipo: tudo será diferente ou nada será diferente, requerem, no mínimo, cautela. Em tempos de tantas incertezas, é tentador buscar precisar o que virá. Mas isso pode, talvez, nos fazer perder o tempo de viver.

    E o que pode ser esse tempo de viver? Nesses tempos de pandemia, vimos a velocidade de tudo ser drasticamente reduzida. É certo que muitos e muitas conseguem desconsiderar essa lentificação, fazendo velocidade dentro da parada. Por vezes, acaba-se criando meios de desconsiderar o que essa realidade aponta,por meio de tentativas de criar e viver formas de controle rígido de tudo e todos, buscando encobrir o buraco escancarado, que abriu-sebem à nossa frente. Nessa tentativa de encobrir tudo pode fazer essa função: comida, sexo, até mesmo livros, filmes, lives e mais lives, reuniões e mais reuniões, conjecturas intermináveis sobre o que virá.

    Mas, mesmo esse movimento, nãoconsegue encobrir nossa fragilidade, nossos sofreres, nosso corpo frágil, ainda que as tentativas de controlar e modular o corpo, bem como de negar sofrimento, como parte da experiência humana e não como sintoma a ser eliminado, insistam em se apresentar. Ao mesmo tempo, muitos dos nossos modos fracassados de vida -modos de consumir, modos de relacionar com as pessoas, com o ambiente e a natureza, com as diferenças, com a diversidade; modos de lidar com o trabalho e a exigência absurda de uma gestão de si, nos colocando na condição de pessoassempre insuficientes;modos de governar, numanecropolítica...Tudo isso vai se apresentando, ainda que não para todos, ainda que não na mesma direção e intensidade, mas vai se apresentando como buraco.

    Nesse contexto, angústia, medo, ansiedade, desamparo ou desesperança são comuns. Produzir saídas é imperativo, mas não imperativo, tal como metas de produção impostas ao trabalhador. Penso em possibilidades menores, menos universais. Para produzir saídas é importante assumir, olhar de frente para o medo, assumir o medo e a angústia como sinais de advertência e localizá-los - não como uma fórmula quase mágica de que, se tornando consciente de tudo sobre nós, seremos mais capazes de nos controlar, e todos juntos mais autocontrolados viveríamos melhor - mas como uma possibilidade concreta de viver, lidar e elaborar sobre o que esse tempo nos apresenta.

    “Em redor do buraco tudo é beira (4)”: tomo emprestado de Ariano Suassuna essa ideia para traduzir uma possibilidade – construir beira.Nesses tempos em que estamos, tempos de esburacamentos - que inclui também, o enorme buraco deixado por aqueles que se dizem dirigentes do país, que deveriam apontar direções, mas que no lugar delas demonstram profundo descaso com a vida humana -Nesses tempos, mais do que nunca precisamos, identificar o que podemos, cada um e tambémcomo coletivo, como comunidade UFMG: construir beiras. Anteparos e beiras possíveis. Nesse sentido,por exemplo, a aposta numa Universidade Acolhedora, programa do qual a Comissão Permanente de Saúde Mental vem se debruçando, propondo o Acolhimento, menos como um procedimento, mais como uma política (para todos e responsabilidade de todos; compromisso coletivo), como uma estética (relações mais horizontalizadas, menos marcadas pela competição predatória), como uma ética (compromisso de reconhecimento do outro; forma de estar com os outros – olhar para outros), como uma disposição, pode ser uma das inúmeras possibilidades.

    A meu ver, esse é um tempo que nos pede invenção daquilo que pode ser beira, daquilo que pode ser possível como traço de esperança para quem se dispor (a ter esperança), daquilo que pode significar alguns passos dados para modos de viver mais condizentes com as experiências de quem viveu esse tempo tão radical.  Tal como pensou Crisóstomo, personagem de Walter Hugo Mãe: “Nunca cultivar a dor, mas lembrá-la com respeito, por ter sido indutora de uma melhoria, por melhorar quem se é. Se assim for, não é necessário voltar atrás”(5).


    Referências:

    1.       Rosa, João Guimarães. A terceira margem do rio. In: Rosa, João Guimarães. Primeiras Estórias. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira. 1988. p.32-34.

    2.       Freud, Sigmund. O mal estar na civilização. In: Freud, Sigmund. O Mal estar na civilização, Novas Conferências Introdutórias a Psicanálise e Outros textos. Obras Completas, volume 18. Paulo César de Souza (trad.). São Paulo: Companhia das Letras, 2010 [1930]: p.13-122.

    3.       Movimento da Nova Normalidade –Conselho Latino Americano de Investigação para a Paz. Cf. http://unanuevanormalidad.org/

    4.       Ariano Suassuna, em seu funk, apresentado no Seminário Conteúdo Brasil, realizado em São Paulo, 2004. Disponível em:

    5.       Mãe, Walter Hugo. O filho de mil homens. São Paulo: Biblioteca Azul. 2016. 224 p.